O Narciso do futebol
Há anos, ressoam mídia afora elogios derretidos a um clube, que é apontado como uma ilha de organização, um oásis de boa administração e planejamento no caótico futebol brasileiro. Essa agremiação tão enaltecida, claro, atende pelo nome de São Paulo Futebol Clube.
Os gracejos, diga-se de passagem, são quase sempre justos. O clube disputou firmemente cerca de quatro quintos dos títulos que pôde nos últimos oito anos. Em português claro: ou ganha ou chega perto. Só se deu ao luxo de desprezar algumas competições por priorizar outras, como por exemplo a Sul-Americana e o Brasileirão de 2005, disputadas enquanto o time do Morumbi se preparava para o Mundial no Japão, conquistado a duras penas no embate com o Liverpool.
Puxe pela memória, você, torcedor de futebol: quão comum foi, ao longo dos últimos anos, ligarmos a TV e depararmo-nos com algum comentarista a falar “O Corinthians deveria se espelhar no São Paulo, um clube organizado, com oposição atuante, que se reforça bem, etc…”?
Pois é. Apesar do ufanismo galvânico de alguns e do oba-oba avalônico de outros, nem tudo são flores para os lados do Morumbi. Parece que se criou uma pecha de clube intocável no São Paulo. Críticas? Nunca! Futebol é resultado, meu filho. E com isso tudo, formou-se o grande Narciso do futebol tupiniquim. O perfeito. O irretocável. E muita gente foi nessa onda, é ou não é?
Contudo, com o passar dos anos, algumas verdades emergem mesmo aos olhos dos mais insistentes cegos. Oposição atuante? Faz-me rir! Alguém aí sinceramente acredita que o ex-judoca Aurélio Miguel tem alguma chance contra Juvenal Juvêncio? O atual mandatário, por sinal, através de uma manobra esperta, alterou o estatuto do clube e estendeu o tempo de mandato do próximo presidente do clube – ele próprio - para três anos. Mesmo quando Marcelo Portugal Gouvêa era o presidente, todos sabiam que quem mandava mesmo no Morumbi era o homem de sotaque caipira, cachimbo na boca e copo de Chivas na mão. Mais ou menos como no papado de João Paulo II, em que todos tinham plena consciência de que a eminência parda era o ex-integrante da Juventude Nazista, Joseph Ratzinger – que hoje atende pela alcunha de Bento XVI. Para se ter uma idéia de como JJ tem o absoluto domínio do terreno político tricolor, vejamos o exemplo de Rogério Ceni. De dois em dois anos (agora, por exemplo), o goleirão usa uma camisa de gosto questionável, cujas cores não têm absolutamente nenhuma relação com as do clube. Amarela. Claramente, em apoio à Chapa Amarela, o partido de Juvenal nas eleições. Com um cabo eleitoral desses, nem Levy Fidelix perderia uma eleição no São Paulo!


Outro mito criado é o de que o Tricolor não vive crises. Bem… se pensarmos que as crises são, na maioria das vezes, largamente amplificadas e amamentadas pela imprensa esportiva, sedenta por Ibope e vendagem de jornais, não são necessários muitos neurônios para concluir que o São Paulo apenas administra seus desencontros melhor que os rivais. Mirando-se nesse bom exemplo, o Corinthians trouxe o ex-zagueiro Antônio Carlos para ser uma espécie de Marco Aurélio Cunha no clube. Sinceramente, não o acho a pessoa mais qualificada para um cargo que exige que se saiba lavar a roupa suja em casa. Mas a tentativa é válida e louvável.

De acordo com esse pré-conceito adquirido ao longo dos anos, os grupos de jogadores são-paulinos sempre conviveram em paz e harmonia, sem brigas ou discussões. Mas quem acompanha futebol sabe que as coisas não são bem assim. Raramente são. E não precisam ser. É óbvio que a motivação de um jogador é maior quando sente prazer em trabalhar, treinar, jogar, enfim, encontrar seus colegas. Mas não é só de Famílias Scolaris que é feito o futebol. O Corinthians bi-campeão brasileiro dos tempos da Hicks Muse está aí para provar. Vampeta, Rincón, Ricardinho, Edílson, Marcelinho e Vanderlei Luxemburgo: seis dos maiores egos do futebol nacional reunidos e um time vencedor. Portanto, não dou grande valor à “crise” no São Paulo, instalada após a briga entre Fabio Santos e Carlos Alberto. Assim como não daria se fosse no Palmeiras, no Inter, no Flamengo…
Mais uma das lendas instituídas pelos sábios da bola é de que o São Paulo sempre acerta a mão nas contratações. Será? Hei de convir que o índice de acerto tricolor ao reforçar seu plantel é alto, mas não chega nem perto de 100%, como pregam alguns. Voltemos a 2005. O São Paulo, para disputar a Libertadores, não gastou um puto com reforços e preocupava sua torcida, segundo os diagnósticos da imprensa especializada. Trouxe, de graça, os volantes Josué (do Goiás), Mineiro (do São Caetano), o centroavante Luizão (que estava contundido, fora de forma e vinha do Botafogo) e o craque Falcão, do futsal. Já o Corinthians, impulsionado pela parceria com a misteriosa MSI, tratou de abrir o bolso e trazer medalhões. Gastando mais de US$ 30 mi, trouxe Carlos Alberto, Tevez, Gustavo Nery, Mascherano (que só chegaria depois da Libertadores), Marcelo Mattos e o galã argentino Sebá. Assim, agradou a toda a imprensa. Entretanto, basta que se vejam os resultados apresentados por cada reforço com suas novas camisas – e o próprio desempenho dos clubes – para que se conclua quem contratou melhor naquela ocasião. Então, a mídia especializada aprendeu: existia uma tal Lei Bosman, que permitia que os jogadores assinassem pré-contratos seis meses antes do fim de seus atuais compromissos. Quem melhor soubesse lidar com essa nova ordem do futebol mundial (de controle de gastos, custo/benefício, maior atenção às categorias de base, etc), teria maior sucesso. O São Paulo não foi vanguardista. Apenas enxergou e seguiu a tendência.
E isso fez com que alguns erros fossem vistos com maior boa vontade aos olhos dos entendidos da bola. Leandro Bonfim, Christian, Michel, Rodrigo Fabri, Marcel e Edgar são exemplos de contratações frustradas (seria leviandade citar Fredson, Maurinho e Reasco, que vivem a se contundir e, por isso, não tiveram chance de mostrar nada). O quase desperdício de uma pérola chamada Hernanes – que passou um ano encostado no Santo André – foi outro erro. O não-aproveitamento de revelações como Sergio Mota, Diogo, Aislan e Juninho no escasso elenco profissional representa um excesso de cautela de Muricy, aquele mesmo que lançou Breno, com a molecada. A contratação de Fabio Santos foi um erro estratégico que obrigou Muricy a desfazer a dupla de volantes que deu tão certo em 2007. A mentira de Marco Aurélio Cunha, ao negar que houve briga na concentração, foi outra demonstração de que, sim, o São Paulo é “humano”. E como qualquer humano, faz suas merdas. Às vezes, bebe demais e chega com a camisa vomitada em casa. Vez ou outra, falta no trabalho pra ficar dormindo. De vez em quando, manda a mãe à puta que pariu. Normal.
Então, esse ano está servindo, de maneira salutar, para mostrar de uma vez por todas que o “país” São Paulo F.C., por mais que tente parecer, não é perfeito. Tem lá suas guerras, tem lá um princípio de ditadura/dinastia em seu governo, tem lá suas desventuras. Ainda assim, entretanto, está um passo a frente da maioria dos concorrentes.
Adicionar comentário 15 de Abril de 2008 às 16:50 PAGALANXE